Cirurgia refrativa
Sou candidato à cirurgia refrativa? As quatro coisas que decidem
A primeira pergunta de quase todo mundo é quanto custa. A que decide de verdade é outra: o seu olho comporta a cirurgia?
Existe uma diferença grande entre querer fazer a cirurgia e poder fazer. Ela não tem nada a ver com quanto você se incomoda com os óculos, e tem tudo a ver com quatro medidas que só o exame fornece.
Vale dizer isso logo: nem todo mundo é candidato, e isso é segurança. Uma clínica que aprova todo mundo não está sendo generosa, está sendo descuidada.
1. A espessura da sua córnea
A cirurgia a laser corrige o grau removendo uma camada muito fina da córnea, mudando o jeito como ela desvia a luz. Quanto maior o grau, mais tecido precisa sair.
Existe um limite. Abaixo de certa espessura residual a córnea perde estabilidade estrutural, e o problema não aparece na semana seguinte: aparece anos depois, com a córnea se deformando aos poucos. É por isso que a paquimetria, que é a medida da espessura, é inegociável no pré-operatório.
2. A estabilidade do seu grau
Cirurgia refrativa corrige o grau que existe hoje. Ela não impede que ele continue mudando. Operar um grau que ainda está em movimento significa, com alguma frequência, voltar a usar óculos em poucos anos.
Por isso se pede histórico: receitas antigas, comparação com exames anteriores, e uma medida atual. Se o seu grau mudou de forma relevante no último ano, o mais provável é que a orientação seja esperar. Guardar receitas velhas ajuda mais do que parece.
3. O formato da córnea
Espessura é uma coisa, formato é outra. A ceratoscopia mapeia a superfície da córnea e mostra irregularidades que nenhum exame de grau detecta.
Esse é o exame que identifica ceratocone, inclusive em fases iniciais que ainda não deram sintoma nenhum. Ceratocone contraindica o laser que remodela a córnea, e encontrar isso antes da cirurgia é exatamente o que o pré-operatório existe para fazer.
Uma parte considerável dos ceratocones em fase inicial é descoberta assim: numa avaliação para cirurgia refrativa, em alguém que só queria parar de usar óculos e não tinha queixa nenhuma.
4. A sua lubrificação ocular
Ressecamento no pós-operatório é comum e, na maior parte dos casos, transitório. Mas quem já tem ressecamento antes tende a sentir mais, e por mais tempo.
Investigar a lubrificação antes muda duas coisas: permite escolher a técnica que agride menos a superfície do olho, e permite tratar o ressecamento primeiro e operar depois. É por isso que o teste de Schirmer e a avaliação da superfície entram na conta.
O que a avaliação pré-operatória costuma incluir
- Refração, com e sem colírio que relaxa o foco, para achar o grau real
- Paquimetria, a espessura da córnea
- Ceratoscopia, o mapa do formato da córnea
- Avaliação da lubrificação e da superfície do olho
- Mapeamento de retina, porque grau alto tem relação com fragilidade em retina
- Medida da pressão intraocular
É uma consulta longa, e precisa ser. Se você for pingar colírio para relaxar o foco, vá acompanhado ou sem carro: a visão fica embaçada por algumas horas.
O que mais costuma tirar alguém da lista
- Grau ainda em mudança, o motivo mais comum em quem tem menos de 25 anos
- Córnea fina para o grau que precisa ser corrigido
- Ceratocone ou suspeita dele no mapa da córnea
- Olho seco importante não tratado
- Doenças da córnea ou da retina que mudam a prioridade do tratamento
- Gravidez e amamentação, períodos em que o grau pode oscilar
Note que boa parte dessa lista é temporária ou tem caminho alternativo. Um não hoje não é necessariamente um não para sempre.
Se você for candidato, ainda falta escolher a técnica
Ser candidato não define qual cirurgia. Lasik, PRK e implante de lente têm indicações e recuperações bem diferentes entre si, e essa escolha sai das mesmas medidas. Escrevemos sobre isso em Lasik, PRK ou lente fácica.
E se você tem mais de 40 anos, a conta muda de novo, porque entra a presbiopia. Isso está em cirurgia refrativa depois dos 40.
Perguntas frequentes
Qual a idade mínima para fazer cirurgia refrativa?
O critério não é a idade em si, é a estabilidade do grau. Como o grau costuma parar de mudar por volta dos vinte e poucos anos, a maior parte das avaliações acontece a partir dessa faixa. O que se pede é um histórico mostrando que o grau não muda de forma relevante há pelo menos um ano.
Grau muito alto impede a cirurgia?
Não necessariamente, mas muda a técnica. Graus altos exigem remover mais tecido da córnea, e a partir de certo ponto isso deixa de ser seguro. Nesses casos existem outros caminhos, como o implante de lente dentro do olho, que não dependem da espessura da córnea.
Ceratocone impede a cirurgia a laser?
Ceratocone contraindica a cirurgia a laser que remodela a córnea, porque ela já está enfraquecida e o procedimento a enfraqueceria mais. Existem outros tratamentos voltados ao ceratocone em si, como o crosslink e o implante de anel, com objetivos diferentes do de tirar o grau.
Se eu não for candidato agora, posso ser depois?
Em alguns casos sim. Grau que ainda está mudando, olho seco não tratado e alguns quadros da superfície do olho são situações reversíveis ou que se estabilizam. Nesses casos a conclusão não é um não definitivo, é um ainda não, com um caminho definido até lá.
Este texto tem finalidade informativa e não substitui consulta, diagnóstico ou orientação médica individualizada. Sintoma em comum não significa causa em comum: só o exame diz o que está acontecendo no seu olho.