Catarata

Lente monofocal, multifocal ou tórica: qual faz sentido para a sua rotina

A lente mais cara não é automaticamente a melhor para você. O que decide não é a tabela de preços: é como você usa os seus olhos.

Depois que a decisão de operar está tomada, vem a segunda pergunta, e ela costuma chegar embrulhada em tabela de preço: qual lente escolher. Vale inverter a ordem. A lente não se escolhe por categoria, se escolhe por rotina.

O que a lente faz, e o que ela não faz

Na cirurgia, o cristalino opacificado é retirado e uma lente artificial entra no lugar dele. Essa lente fica ali de forma permanente. Ela devolve a transparência, que é o que a catarata tirou, e ao mesmo tempo assume o papel de foco do olho. É por isso que ela também corrige grau, e é por isso que a escolha importa tanto.

O que ela não faz: recuperar o que não depende do cristalino. Se a retina ou o nervo óptico têm alguma limitação, a lente não resolve essa parte. Daí a insistência em examinar o fundo do olho antes de conversar sobre modelo.

As quatro famílias, em português

Monofocal

Tem um ponto de foco só. Na prática, escolhe-se onde ele fica, e o mais comum é deixá-lo para longe. A imagem tende a ser limpa, com bom contraste e pouco reflexo à noite. Em compensação, você usa óculos para perto, e para muita gente isso já era a realidade antes da cirurgia.

É a lente coberta pela cobertura obrigatória dos planos de saúde, e isso às vezes faz parecer que ela é a opção “de menos”. Não é. Para uma parcela grande de pacientes, é a que entrega a imagem mais confortável.

Multifocal e trifocal

Dividem a luz que entra entre dois ou três pontos de foco, para dar longe, intermediário e perto. Reduzem a dependência de óculos em boa parte do dia. O custo dessa divisão aparece em duas frentes: halos e reflexos ao redor de fontes de luz à noite, e um período de adaptação em que o cérebro aprende a lidar com mais de uma imagem ao mesmo tempo.

Foco estendido

Fica no meio do caminho. Em vez de pontos separados, estica uma faixa de foco que costuma cobrir bem longe e intermediário, que é a distância da tela e do painel do carro. Tende a gerar menos halo que a multifocal, e tende a exigir óculos para leitura de perto com mais frequência.

Tórica

Tórica não é uma categoria paralela às outras: é uma característica que corrige astigmatismo e que pode vir combinada com monofocal, multifocal ou foco estendido. Ela exige um posicionamento preciso dentro do olho, porque trabalha em um eixo específico.

TipoCostuma entregarCostuma custar
MonofocalImagem limpa em uma distância, geralmente longeÓculos para perto
Foco estendidoLonge e intermediário numa faixa contínuaÓculos para leitura de perto, com alguma frequência
Multifocal e trifocalMenos dependência de óculos ao longo do diaHalos e reflexos à noite, mais tempo de adaptação
TóricaCorreção de astigmatismo, combinada com qualquer das acimaExige posicionamento preciso e medida caprichada

As perguntas que realmente decidem

Antes de olhar modelo, vale responder estas com sinceridade. Elas mudam a indicação mais do que qualquer outra coisa.

  • Você dirige à noite, e com que frequência? Estrada escura e farol de carro vindo de frente são justamente onde os halos aparecem.
  • Quantas horas por dia você passa em tela? A tela mora na distância intermediária, que é onde as lentes mais se diferenciam entre si.
  • Você lê muito, e em que suporte? Livro impresso, bula de remédio e celular são três distâncias diferentes.
  • Você se incomoda em usar óculos para perto? Se a resposta for “não, uso desde sempre”, isso simplifica bastante a escolha.
  • Você é exigente com detalhe visual? Quem repara em nitidez costuma reparar também em halo e em queda de contraste.

Na aba de catarata da página inicial existe um comparador que organiza essas mesmas perguntas. Ele não indica lente nenhuma, e não deve indicar: serve para você chegar na consulta sabendo o que perguntar.

Sobre o que você está pagando

A cirurgia de catarata está no rol de procedimentos obrigatórios da ANS, incluindo a lente monofocal básica. As lentes chamadas premium, que é como o mercado se refere às multifocais, trifocais, tóricas e de foco estendido, costumam ficar fora da cobertura obrigatória, e nesses casos o paciente pode optar por complementar o valor.

O ponto que costuma faltar na conversa: complementar valor faz sentido quando a lente resolve um problema que é seu. Não faz sentido como upgrade genérico. Se a sua rotina não usa o que a lente entrega, você paga por uma característica que vai aparecer só nos efeitos colaterais.

Escrevemos com mais detalhe sobre a parte de cobertura em cirurgia de catarata pelo convênio.

Perguntas frequentes

A lente intraocular precisa ser trocada com o tempo?

Não. A lente implantada na cirurgia de catarata é feita para permanecer, e não tem prazo de validade nem exige substituição periódica. Troca de lente é situação incomum e acontece por indicação específica, não por desgaste.

Com lente multifocal eu paro de usar óculos?

Não é possível prometer isso, e desconfie de quem prometer. Lentes que dividem a luz entre distâncias reduzem a dependência de óculos em parte das situações, mas há quem siga usando para leitura prolongada, letra miúda ou luz baixa. O que dá para dizer com honestidade é em quais situações você provavelmente ainda vai querer os óculos.

Quem tem astigmatismo precisa obrigatoriamente de lente tórica?

Depende de quanto astigmatismo existe e de onde ele vem. Astigmatismo baixo muitas vezes é resolvido por outros caminhos durante a cirurgia. A partir de certo grau, a lente tórica passa a ser o recurso que corrige melhor. A medida da córnea no pré-operatório é o que responde isso.

Por que o médico às vezes desaconselha a lente premium?

Porque lente que divide luz entre distâncias exige uma retina e uma córnea em boas condições para entregar o que promete, e porque ela costuma gerar halos e reflexos à noite. Para quem dirige muito no escuro, para quem tem alteração de retina ou córnea e para quem é muito exigente com detalhe visual, a lente mais simples pode entregar uma imagem mais limpa.

Este texto tem finalidade informativa e não substitui consulta, diagnóstico ou orientação médica individualizada. Sintoma em comum não significa causa em comum: só o exame diz o que está acontecendo no seu olho.

Próximo passo

A conversa sobre lente começa pela sua rotina, não pelo catálogo.

Antes de falar em modelo, perguntamos como você usa os seus olhos. A resposta dessas perguntas define a lente, e não o contrário.

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