Retina e diabetes

Diabetes e visão: por que examinar o fundo do olho mesmo enxergando bem

A alteração de retina ligada ao diabetes começa muito antes de a visão cair. Quando ela vira sintoma, parte do caminho já foi percorrida.

Se você tem diabetes, provavelmente já ouviu que precisa fazer exame de vista todo ano. E provavelmente já adiou, porque está enxergando bem e a agenda está cheia. Este texto é sobre por que essa lógica não funciona nesse caso específico.

O que o diabetes faz na retina

A retina é o fundo do olho, o tecido que transforma luz em imagem. Ela é irrigada por vasos muito finos, e é justamente esse tipo de vaso que o excesso de açúcar no sangue castiga ao longo do tempo, nos olhos e em outros lugares do corpo.

Esses vasos vão ficando frágeis. Alguns vazam, outros entopem, e a retina passa a receber menos do que precisa. Nas fases mais adiantadas o olho tenta compensar criando vasos novos, e eles nascem frágeis, no lugar errado, com tendência a sangrar.

Por que a visão só cai depois

Duas razões, e as duas explicam o adiamento.

Primeira: a retina não dói. Não existe alarme. Nenhuma dor, nenhum ardor, nenhum aviso.

Segunda: as alterações costumam começar longe do centro. A parte da retina responsável pela visão de detalhe é uma região pequena no meio. Enquanto a alteração está na periferia, a visão central segue nítida, e é ela que você usa para ler a placa e reconhecer rostos. Dá para ter alteração considerável enxergando bem.

É por isso que o exame de fundo de olho é solicitado a quem não tem queixa nenhuma. Ele não existe para confirmar um sintoma. Ele existe para encontrar antes de o sintoma aparecer.

O que o exame encontra

Com a pupila dilatada, o médico examina a retina inteira, inclusive a periferia. Os sinais iniciais que se procura são pequenos e mudos:

  • Microaneurismas, que são pequenas dilatações nos vasos
  • Pontos de sangramento muito discretos
  • Depósitos de gordura e proteína que vazaram dos vasos
  • Inchaço na região central, que é o que mais afeta a visão quando aparece
  • Vasos novos, o sinal de uma fase mais adiantada

Conforme o achado, o mapeamento pode ser complementado por outros exames, como a OCT, que faz um corte de alta resolução da retina e mostra inchaço que o exame de fundo sozinho não quantifica, e a retinografia, que fotografa o fundo do olho e serve de documentação para comparar ano a ano.

Como se preparar

  • sem dirigir ou acompanhado: a dilatação embaça a visão por algumas horas
  • Leve óculos escuros, porque a luz incomoda bastante na saída
  • Leve seus exames de glicemia e hemoglobina glicada recentes
  • Leve a lista de medicamentos que usa
  • Se já fez exame de retina antes, leve o resultado, mesmo de outra clínica: a comparação vale muito

O que muda o risco

Não é só ter diabetes. Pesa também:

  • Há quanto tempo você convive com o diagnóstico
  • Como está o controle da glicemia ao longo do tempo, não em um exame isolado
  • Pressão alta associada, que castiga os mesmos vasos
  • Alterações nos rins, que costumam andar junto
  • Gravidez, período em que o acompanhamento costuma ficar mais próximo

Quem tem diabetes tipo 2 merece uma nota à parte: como a doença pode passar anos sem diagnóstico, a orientação usual é examinar os olhos já na descoberta, sem esperar o primeiro ano.

Se alguma queixa já apareceu

Manchas escuras paradas no campo de visão, áreas que embaçam sozinhas, linhas retas que parecem entortar ou uma piora que vai e volta merecem avaliação sem esperar o exame anual. Escrevemos sobre esses sinais em os sinais que aparecem antes de a visão cair.

Na simulação da página inicial dá para ver como essas alterações mudam a leitura de uma página, que é a comparação que mais aproxima da queixa real.

Perguntas frequentes

Com que frequência quem tem diabetes deve examinar os olhos?

A orientação mais comum é uma avaliação por ano, com intervalo menor quando já existe alguma alteração ou quando o controle da glicemia está difícil. Quem tem diabetes tipo 2 costuma ser orientado a examinar já no diagnóstico, porque a doença pode ter começado anos antes de ser descoberta. O seu intervalo é definido na consulta.

Estou enxergando bem. Preciso mesmo fazer o exame?

Sim, e esse é exatamente o ponto. A retina não dói e as alterações iniciais ficam fora da região central da visão, então dá para ter alteração significativa enxergando bem. Quando a visão cai, o que se trata é uma fase mais adiantada.

O exame de fundo de olho dói?

Não. O que incomoda é o colírio que dilata a pupila: ele deixa a visão embaçada e a luz incômoda por algumas horas. Por isso vale ir acompanhado ou sem dirigir, e levar óculos escuros.

Se aparecer alteração, dá para tratar?

Existem tratamentos, e eles variam conforme a fase e o tipo de alteração. O que mais muda o cenário é o momento em que a alteração é encontrada: quanto mais cedo, mais opções e menos urgência. Junto com o tratamento oftalmológico, o controle da glicemia e da pressão continua sendo parte central do cuidado.

Este texto tem finalidade informativa e não substitui consulta, diagnóstico ou orientação médica individualizada. Sintoma em comum não significa causa em comum: só o exame diz o que está acontecendo no seu olho.

Próximo passo

O exame que encontra antes de doer.

Se você tem diabetes, o mapeamento de retina precisa entrar na sua rotina de acompanhamento com intervalo definido, e não só quando aparece queixa.

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